Após caminhada de 8 km, devotos relatam fé ao Senhor do Bonfim - Gazzeta do Recôncavo

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Após caminhada de 8 km, devotos relatam fé ao Senhor do Bonfim

No meio de uma multidão, ele chega devagar, se ajoelha na escadaria, amarra a fitinha no adro da Basílica Santuário Senhor Bom Jesus do Bonfim, e faz três pedidos: um para cada nó. A descrição poderia ser de uma pessoa especifica, mas, especialmente nesta quinta-feira (11), ela representa milhares de fiéis que participam da secular Lavagem do Bonfim, em Salvador.

A festa faz parte das celebrações em homenagem ao santo, que começaram no dia 4 de janeiro e vão até o domingo (14). Em um cortejo de oito quilômetros, católicos, candomblecistas e umbandistas se juntaram para agradecer, pedir paz, saúde, proteção e bênçãos para o ano que começa.

Os desejos para o Senhor do Bonfim e Oxalá, orixá que representa o santo católico no sincretismo das religiões de matriz africanas, são diversos. Amigas, o trio de atletas amadoras formado por Cecinha, Lú e Patrícia chegou bem cedinho à igreja, antes mesmo das 7h. Elas fazem o percurso do cortejo juntas, correndo, há, pelo menos, cinco anos. Desde a saída da Igreja da Conceição da Praia, elas mentalizam os pedidos e agradecem pelo ano que passou.
Amigas fizeram o cortejo correndo (Foto: Itana Alencar/ G1)
“Aqui [na Lavagem do Bonfim] começa a abertura de todo ano. É uma renovação e celebração da vida e, principalmente, da nossa saúde para chegar aqui. A ele [Senhor do Bonfim], só temos a agradecer as bênçãos do divino. E se tem que pedir alguma coisa é saúde, porque o resto é consequência”

Lú, que antes de fazer o cortejo com as amigas já correu outros três anos sozinha, completa: “Para nós, é o pontapé inicial das nossas corridas. É a primeira do ano. Então é justo que a gente venha agradecer e pedir proteção para a vida”. Vendedor das famosas fitinhas do Bonfim e outros símbolos de proteção há mais de 20 anos, Nilton Jorge da Silva, já viu muitas histórias de devoção.
Nilton é vendedor de fitinhas do Bonfim e conhece muitas histórias de fé e devoção ao santo (Foto: Itana Alencar/ G1)
Na família dele, a tradição de vender as fitinhas é passada há várias gerações. “Quem passou para mim foi minha mãe. Agora, além das fitinhas eu vendo terço, vela, figas. Sempre renovando a fé das pessoas”, disse. Mesmo o branco sendo a cor que representa as duas divindades religiosas, junto com o azul, Nilton garante que todas as cores do adereço são vendidas igualmente. “Os fieis costumam comprar o maço colorido, porque cada cor representa um santo e um orixá. Muitos turistas nos procuram, mas os baianos são meus principais clientes”

Banho de folhas
A candomblecista Gláucia Costa participa pela segunda vez da Lavagem do Bonfim, oferecendo, em frente à basílica, banhos de folhas para os fiéis, independente da religião de quem aceita. “É uma espécie de purificação, como as rezadeiras fazem. No entanto, a gente usa outras folhas, como a arruda, que protege contra o mal olhado”.
Candoblecista Gláucia ofereceu banho de folhas em frente à Igreja do bonfim (Foto: Itana Alencar/ G1)
"Muita gente cobra para fazer, mas a gente não. Um verdadeiro servo trabalha por caridade. Por vezes, o pessoal doa pequenos valores como forma de agradecimento. Esse dinheiro, é o que a gente usa para fazer oferendas a Oxalá”, explicou Glaucia. Além da arruda, ela usa a aroeira, para limpeza do corpo e a “pemba” de Oxalá, um tipo de pó branco, que serve para acalmar os caminhos, de acordo com Glaucia.
Ramona, que mora em Cruz das Almas, no Recôncavo, participa da Lavagem do Bonfim todos os anos e gosta de receber banho de folhas para abrir os caminhos (Foto: Itana Alencar/ G1)
Uma das pessoas que tomaram banho de aroeira foi a turista Ramona Greice, da cidade de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Ela participa há cinco anos da Lavagem do Bonfim e sempre faz o ritual. “É muito importante vir, pagar as promessas, agradecer, pedir prosperidade e paz”, falou ela, que fez mistério com relação aos pedidos e promessa. Por insistência, ela só revelou: “É saúde”.

Promessas
Os pagadores de promessa são muitos. Desde o rapaz que sobe a Colina Sagrada de joelhos, em uma súplica silenciosa, à baiana que lava as escadarias da igreja há 37 anos. O homem que fez o percusso ajoelhado preferiu não dar entrevista. A católica Márcia dos Santos, de 52 anos, fez o pedido de cura da saúde em troca da caminhada de 8 km. Para pagar uma promessa, ela fez o cortejo vestida de baiana.
Homem é visto em trecho do cortejo, que tem 8 km, ajoelhado para pagar promessa (Foto: Itana Alencar/ G1)
“Faço o percurso completo desde 1981. Minha promessa foi um pedido ao Senhor do Bonfim para voltar a andar direito, e voltei. Já paguei a ele [o santo] o que devia, mas continuo todo ano para agradecer”. Filho de Ogum, Mariano Rodrigues saiu da cidade de Barreiras para a capital, também para pagar uma promessa, mas também preferiu não revelar o pedido que o faz participar da festa há oito anos. “Oxalá é o orixá mais importante da minha religião, o candomblé. Assim, eu me sinto como seu filho também. Vir aqui é uma forma, não só de pagar a promessa, mas também de agradecer”.
Márcia dos Santos é católica, e foi à Lavagem vestida de baiana para pagar uma promessa (Foto: Itana Alencar/ G1)
De branco, multidão enfrentou caminhada de 8km entre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e a Igreja do Bonfim (Foto: Camila Souza/GOVBA )