Comercial Ramos: gigante da construção da últimos suspiros

A placa de ‘aluga-se’ na fachada já dava o tom de despedida. No local, portas fechadas e restos de uma história deixada para trás. Quem um dia já foi a maior rede de lojas de materiais de construção do estado, hoje tem dado os últimos suspiros. A loja matriz da Comercial Ramos, na Avenida Antonio Carlos Magalhães, fechou as portas há dois meses.
Os sinais da crise já transpareciam há anos. Clientes relatam que, ao contrário do que ocorria nos tempos áureos da loja, recentemente estava mais difícil de encontrar opções sortidas e o preço mais em conta do que nas concorrentes.
A rede de loja, que já chegou a se considerar ‘a maior do Norte/Nordeste’ e uma das 25 maiores revendedoras do segmento no país, agora só possui duas unidades no estado: a de Lauro de Freitas, considerada a atual sede, e a da San Martin, na capital. Vitória da Conquista, Feira de Santana e  Vale do Nazaré, em Salvador, já estão com as suas unidades fechadas.
O resultado, no entanto, não é algo isolado. É o que garante o presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção do Estado da Bahia (Acomac-BA), Geraldo Cordeiro, que ressalta que, nos últimos anos, a crise acabou resultando no fechamento de várias lojas no segmento de venda de material de construção. Ele relembra o fechamento da Dismel, que liderava o ramo antes da Ferreira Costa, e disse que outras lojas do ramo também fecharam no estado.
Motivos
A falta de demanda interna foi apontada como um dos principais problemas enfrentados pelas empresas do setor de construção civil, segundo a Sondagem Indústria da Construção referente a junho. A pesquisa foi divulgada no último dia 26 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A demanda interna insuficiente foi apontada por 37,3% dos empresários pesquisados – atrás apenas da carga tributária (37,9%). No primeiro trimestre, a preocupação com a demanda insuficiente estava pouco abaixo, sendo mencionada por 35,2% dos entrevistados.
Também foram citadas a falta de capital de giro (28,8%), a inadimplência dos clientes (25,6%), a burocracia excessiva (24,2%), a taxa de juros elevados (23%) e a falta de financiamento de longo prazo (14,3%). Diante desse cenário, a CNI defende que o governo adote “medidas que possam lidar com a falta de demanda” e que facilite o financiamento, o que, “certamente, seria positivo para o setor”.
No ano passado, um acordo realizado entre o Sindicato dos Empregados do Comércio de Salvador e a Justiça Trabalhista garantiu rescisões para cerca de 400 trabalhadores da Comercial Ramos. O fechamento que ocorreu nestes últimos meses, no entanto, foi visto como “inesperado” pelos membros do sindicato.
Ele conta que fazia questão de ir na loja e questionar os trabalhadores se os direitos trabalhistas deles estavam sendo cumpridos pela empresa. “Eu perguntava se eles estavam depositando o valor do Fundo de Garantia Social, o valor da aposentadoria, tudo isso. Eles levavam na brincadeira, mas acredito que tudo tenha dado certo, já que não buscaram o sindicato”, disse.
A Comercial Ramos foi fundada em 1987 por dois irmãos pernambucanos. Após divergências entre eles, no entanto, a rede foi vendida para baianos e passou por diversos donos nos últimos anos. Na Avenida ACM, que já chegou a ter mais de 150 funcionários, hoje só restam seguranças que permanecem no local protegendo o patrimônio e dando a má notícia aos clientes desavisados.
O CORREIO conversou com ex-funcionários da loja da ACM que relataram que a unidade foi caindo aos poucos. Primeiro, as mercadorias começaram a diminuir. Logo depois, os clientes começaram a reclamar e não voltar mais. Eles contam que um grupo de dez  funcionários chegou a ser relocado na unidade da San Martin e que aproximadamente outras 50 pessoas foram demitidas.
“O fechamento de Nazaré tem mais ou menos um ano. Houve demissões na San Martin também na época, mas não chegou a fechar. Alguns funcionários foram relocados internamente para a San Martin, não sabemos se algum foi para Lauro de Freitas”, contou um deles.
Na loja da Av. ACM, além das portas fechadas e da placa de “aluga-se”, foram encontrados restos de materiais de construção espalhados pelo local. Os seguranças não quiseram falar.
Há 20 anos, o carreteiro Cleiton Matos, 38 anos, aproveitava o movimento da loja para conseguir clientes. Ele ficava sentado na porta e oferecia seus serviços a quem precisava transportar uma boa quantidade de material de construção. Há dois meses, após o fechamento da loja, o orçamento de Cleiton reduziu em 80%.
“Eles fecharam no dia 19 de maio e terminaram de tirar as coisas no dia 31 de maio. Só restaram mesmo quatro seguranças. Eu sempre oferecia o meu serviço para quem vinha comprar produto na loja. O meu orçamento caiu em 80%. O resto é de cliente que me liga e de pessoas que vêm aqui atrás do serviço”, lamentou Cleiton.
O taxista Vitor Patrocínio, 60, trabalha no local há 15 anos. Ele relata que, recentemente, começou a ouvir constantes reclamações dos clientes. E elas eram as mesmas: preço maior, menor variedade e qualidade abaixando. “Isso tem uns quatro anos. As pessoas reclamavam e não vinham mais. Aí a gente tinha menos cliente, né? O meu orçamento reduziu em 50% depois disso, porque o meu ponto é aqui”, disse.
Até mesmo para a barraca de Rita de Cássia França, 53, o fechamento do empreendimento não foi positivo. Ela conta que o movimento caiu bastante e que tem doído bastante no bolso. “A gente precisa é que outra loja venha logo para movimentar de novo aqui. Até os restaurantes, as barraquinhas, todo mundo está sofrendo”, disse.
Agora, o que fica é o medo dos que continuam empregados nas duas últimas unidades. Um cliente da Loja San Martin relatou à reportagem que a loja está “muito cara” e com poucos clientes. 
O engenheiro mecânico aposentado Alexandre Ribeiro, 60, afirmou ter ficado surpreso com o fechamento da loja. “Eu não dei conta que a loja estivesse desabastecida. Eu não encontrava o que queria, mas nunca reparei algo crônico. Sou cliente há 15 anos e fiquei surpreso com a notícia”, disse ele.
A Comercial Ramos informou que não iria comentar.
Setor passa por mudança de perfil
O presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção do Estado da Bahia (Acomac-BA), Geraldo Cordeiro, destacou que há uma mudança de perfil no setor de vendas de material de construção.
Ele explica que grandes empresas estão fechando e, com isso, microempresas e microempresários estão surgindo para vender os materiais. 
“Nós estamos perdendo empresas com expressão no mercado, mas o número total vem se mantendo ao longo dos anos. Isso porque esses novos empreendedores surgem”, disse.
De acordo com ele, as mais de 8 mil lojas de material de construção da Bahia movimentam, juntas, aproximadamente R$ 6 bilhões anuais. Só em Salvador são 2 mil lojas.
“O que está acontecendo é que está caindo a qualidade. As pessoas perdem os empregos e vão para o empreendedorismo. Uma vez lá, elas notam a dificuldade que é gerenciar um negócio no Brasil”, disse.
Mesmo com a crise, o presidente afirma ter esperanças de que a economia melhore este ano. “No início do ano, nós tínhamos uma previsão muito mais otimista, uma perspectiva de crescimento de 3%. Hoje nós falamos em 1% ou pouco menos, mas teremos um crescimento, de qualquer maneira”, afirmou.
Crescimento será retomado, diz associação
O presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi), Cláudio Cunha, destaca que o setor da construção civil foi o que mais gerou empregos este ano no país.
“Nós estamos passando por um momento de retomada de crescimento, desde o final do ano passado, no mercado imobiliário e na construção civil”, disse.
Cunha destacou que, além das demandas naturais do mercado, a cidade de Salvador e o estado da Bahia estão com obras de infraestrutura em andamento, o que gera empregos imediatos para a área.
“Eles precisam contratar a mão de obra do setor e, com a recuperação, a demanda para o mercado imobiliário também cresce”, disse.
O presidente destacou que Salvador, em relação ao Nordeste, é uma das cidades que tiveram o maior número de postos de trabalho abertos e que deve manter crescimento até o final do ano.
“A construção civil deve ter um crescimento de 7% ainda neste ano e queremos gerar emprego e renda para o país”, afirmou Cunha.
Fonte: Correio da Bahia

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