Eleições: ‘ACM Neto e o candidato do governo polarizarão sem deixar margem para 3ª via’, diz cientista político; confira

 


O cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas Neto, não acredita que há chance de uma terceira via vingar na eleição para governador. Para ele, o pleito estadual será polarizado entre o ex-prefeito soteropolitano ACM Neto (DEM/União Brasil) e o candidato do governo. Apesar de o PT ter lançado o senador Jaques Wagner (PT) como o postulante governista, Dantas Neto tem dúvida se, de fato, o petista será postulante no próximo ano.

“A incerteza maior não provém de sua posição atual nas pesquisas, que nada tem de definitiva, mas do quadro nacional e, dentro dele, com especial destaque, da manutenção do fator Lula nas atuais condições de competitividade. Além disso, dependerá da capacidade do acordo político estadual longevo, que resiste a várias tempestades da política brasileira, tornar-se uma aliança política de fato, feita entre partidos, com amplitude nacional”, disse o professor, em entrevista à Tribuna. “Um dado concreto do momento é que ACM Neto será candidato oposicionista competitivo a governador. Outro é que o governo estadual patrocinará uma candidatura, também competitiva. Desses dois dados resulta o prognóstico de que essas duas candidaturas polarizarão a disputa sem deixarem margem a uma terceira via com chances reais de competir com sucesso. Não vejo como ir além desse ponto no exercício prospectivo. Isso quanto à solução. Quanto ao diagnóstico do problema, pode ser feito na resposta à pergunta seguinte”, acrescentou.

Tribuna – Bolsonaro parece ter adotado um perfil mais moderado. É estratégia político-eleitoral? Se sim, acha que é acertada? Ou desagradará ao eleitor mais radical? 

Dantas Neto – Prefiro dizer que Bolsonaro foi levado a recuar para evitar que seu mandato ficasse em sério risco, após o fracasso de sua tentativa de autogolpe, em setembro. Uma tática, é disso que se trata e nada mais. A estratégia continua a ver o processo eleitoral como variável secundária, destinada a evitar o encurtamento do seu mandato e a mobilizar seus adeptos. Junto a eles Bolsonaro atua mordendo e assoprando e nisso politiza sua turma que se torna, ela mesma, capaz de colocar ideologias entre parênteses para apoiar o mito numa tática aparentemente eleitoral. Mas considero que a aposta permanente, que vai além das táticas, segue sendo a subversão do jogo político. Deve-se achar seus cúmplices em setores recalcitrantes do empresariado e em corporações e facções sociais auto interessadas no seu populismo e que, por isso, podem ajudá-lo a fomentar algum tipo de caos social que justifique o apelo a uma ordem autocrática. Para essa estratégia golpista ele não conta com aliados relevantes na política. Penso que o movimento do ex-presidente Temer de lhe apresentar a alternativa da carta pública como um bote salva-vidas teve ares de ultimatum. Bolsonaro embarcou no bote como refém de uma situação objetiva cujo prazo de validade é incerto, pois depende da resignação do refém (e já são muitos os sinais de que ela oscila novamente) e da paciência de quem o mantém à tona.

Tribuna – A menos de um ano da eleição, vemos se desenhar uma polarização entre Lula e Bolsonaro. O senhor acha que esse cenário deve se manter até outubro de 2022? 

Dantas Neto – Esse cenário ainda é o mais provável, mas já foi mais. À medida em que as eleições se aproximam e a rejeição a Bolsonaro e ao seu governo se consolida o vírus da incerteza se espalha no campo que pragmaticamente o apoiou em 2018.  É logico supor que, diante da regra da eleição em dois turnos, as forças situadas nesse campo buscarão alternativas eleitoralmente mais realistas. O que não se sabe – porque a lógica não é uma soberana indiscutível em política – é se farão isso organizadamente ou de modo disperso e nessa segunda hipótese estão as chances da polarização Lula/Bolsonaro se manter.

Tribuna – Na eleição, o que pesará contra e a favor de Bolsonaro e Lula? 

Dantas Neto – Essa pergunta adota a premissa de que essa será a polarização final. Com as ressalvas que já fiz a essa premissa, penso que, se esse for o segundo turno, pesará contra Bolsonaro a realidade econômica e social dramática do presente país, vitimado pelo seu desgoverno e, a seu favor, as feridas de um passado que, por não ter sido responsavelmente assumido, também com seus erros, por Lula, pelo PT e seus principais líderes, mantém o antipetismo vivo, ainda que atenuado, em larga faixa do eleitorado brasileiro. Os efeitos invertidos desses mesmos fatores é que pesarão contra ou a favor de Lula. Parece provável que num segundo turno assim não se pode esperar que o futuro tenha relevância na pauta.

Tribuna – Temos visto o ex-juiz Sergio Moro em terceiro lugar nas pesquisas. O senhor acha que ele já se consolidou nessa posição, em detrimento de Ciro Gomes? 

Dantas Neto – Se o ex-juiz de fato se estabilizar por alguns meses, no terceiro lugar, deixando para trás não só Ciro Gomes, como os demais concorrentes, atuais ou futuros, penso que ele tende a ultrapassar Bolsonaro perto da reta final. Isso porque sua pré-candidatura é repaginação alternativa daquele mesmo páthos aventureiro que saiu vencedor em 2018. Aparece não como “terceira via”, mas exatamente como eventual beneficiária do fracasso dela. Se a candidatura Moro demonstrar viabilidade eleitoral efetiva (coisa que não ocorreu até aqui) tende a imantar aquela nuvem que se fechou em torno de Bolsonaro, na eleição anterior. Será a proposta de continuidade do que aí está, após o bode ser tirado da sala. Porém, no terreno da realidade eleitoral esse cenário ainda sequer pode ser afirmado como provável.

Tribuna – A provável aliança Lula-Alckmin é uma boa estratégia? Ou corre o risco de repetir PT-MDB/Dilma-Temer? 

Dantas Neto – Antes de responder, quero fazer uma observação. A aliança entre PT e MDB não foi, a meu ver, um erro político, nem continha em si um alto potencial de risco para a liderança do PT. Até 2010, quando ela foi celebrada nos termos de uma chapa presidencial, o MDB não tinha projeto de poder próprio para o Executivo federal, ao contrário, se sentia confortável na posição de partido relevante nos Estados e grande coadjuvante no Executivo Federal, em razão de seu forte peso congressual. E seguiu assim até 2013, quando a qualidade da gestão federal passou a ser questionada nas ruas, pelos movimentos de junho daquele ano. Ali a facção governante da elite política passou a desafinar, cada parte jogando a seu modo para a plateia. A aliança se tornou instável pela incapacidade de o Poder Executivo seguir, nos governos de Dilma Rousseff, exercendo a coordenação política da agenda de relação entre ele e o Legislativo, papel exercido com ânimo estratégico pelos governos FHC e com eficácia tática pelos governos de Lula. “Farinha pouca, meu pirão primeiro” foi a lógica que converteu aliados em rivais, depois em inimigos.  Digo mais: a aliança entre PT e MDB só não foi mais longeva e benéfica ao país porque não foi levada às últimas consequências como aliança política capaz de ser não apenas pragmática, mas também programática. A ideia de ter apoio duradouro do MDB e de outras forças a um governo de clara hegemonia do PT com base apenas na distribuição de recursos materiais e posições na máquina revelou-se uma ilusão que não ficou barato nem para o PT, nem muito menos para o País.

Feita a observação, respondo ao foco principal da pergunta: a meu ver, a aliança Lula / Alckmin será, se for mesmo concretizada, uma sinalização positiva no sentido de uma agregação política necessária ao país neste momento. Quem o reconheceu de público foi, dentre outros, um lúcido adversário do PT, o ex-prefeito ACM Neto, em recente entrevista à rádio Metrópole. Áreas da esquerda mais cativas de uma lógica política binária podem ler essa manifestação do adversário como indício de que se trata de uma roubada, mas os movimentos de Lula indicam que, nesse ponto, ele está lendo a realidade corretamente. Sua popularidade é grande, mas não bastará para elegê-lo presidente, muito menos para lhe dar estabilidade no cargo se ele não fizer um aceno concreto a um amplo segmento do eleitorado e a um conjunto de forças políticas que ainda tem uma memória negativa dos anos do PT no poder.

No entanto, vejo duas limitações nas iniciativas tomadas até aqui por Lula e pelo PT para viabilizar essa virtual aliança. A primeira é que atrair Alckmin não basta para conquistar o “centro”. Será um autoengano (ou um estratagema enganoso que só atrairá amadores) supor que sua simples presença na chapa dispensará o candidato presidencial de tratar cada força política potencialmente aliada como interlocutora idônea, de per si. A tentação de capturar eleitores no gogó e assim constranger os partidos a apoiarem o candidato por gravidade pode ser um erro de cálculo fatal. Essa antiga conduta populista, num contexto quase distópico em que populismos abundam, põe em risco a possibilidade de uma candidatura de centro-esquerda aliar, ao carisma, a “extenuação da política”, expressão utilizada pelo ex-ministro Luiz Mandetta para definir o modus operandi de uma virtual candidatura que se mostre como autêntica opção de centro político, indo além do que se espera de um mero pugilista eleitoral.

A segunda limitação é a desobrigação, até aqui constatada na atitude dos promotores da ideia da chapa, de fazer essa possível união de diversos se entender do ponto de vista programático. Qual será a resultante de uma combinação de lulo-petismo e liberalismo? Essa pode ser uma pergunta martirizante durante quatro anos se a equação não for montada desde a campanha, mesmo que só seja resolvida em termos conclusivos no exercício do governo, se houver sucesso eleitoral. Claro que não estou falando de compatibilizar doutrinas, até porque lulo-petismo não é doutrina e doutrinas atrapalham concertações políticas. Trata-se de compatibilizar atitudes estratégicas de campos políticos que transcendem o que eram PT e PSDB quando disputavam o centro, antes da extrema-direita descentrar a política brasileira.

Tribuna – O PSDB conseguirá se recuperar das prévias traumáticas e com a saída de nomes como Geraldo Alckmin? 

Dantas Neto – Não sei. Parece que não, mas o que se dizia do PT após as eleições de 2016?

Tribuna – Considerando os atuais pré-candidatos ao governo da Bahia, acredita que Bolsonaro poderá ter palanque no Estado? 

Dantas Neto – Se falamos do primeiro turno, acredito que a boca de Bolsonaro é bastante apenas para ir a Roma. Quanto ao segundo turno, as incertezas são muitas e a primeira delas é se Bolsonaro estará lá.

Tribuna – A aliança PT/PSD/PP poderá ser abalada diante do impasse para a formação da chapa petista ao governo baiano? Leão não pode mais ser candidato a vice. E Otto deve disputar o Senado. Qual a solução mais provável eles encontrarão? 

Dantas Neto – Não me considero suficientemente informado para fazer conjecturas sobre a solução que encontrarão. Talvez nem eles mesmos saibam. Minha impressão é que tratativas sobre as eleições estaduais dependem muito do quadro nacional. Um dado concreto do momento é que ACM Neto será candidato oposicionista competitivo a governador. Outro é que o governo estadual patrocinará uma candidatura, também competitiva. Desses dois dados resulta o prognóstico de que essas duas candidaturas polarizarão a disputa sem deixarem margem a uma terceira via com chances reais de competir com sucesso. Não vejo como ir além desse ponto no exercício prospectivo. Isso quanto à solução.

Tribuna – O que pesa a favor e contra os principais pré-candidatos ao governo da Bahia, Wagner e Neto?

Dantas Neto –  Essa é outra pergunta que adota, como premissa, uma polarização final cuja concretização ainda precisará ser confirmada. Dá para cravar que ACM Neto será um dos polos de uma disputa que pode se resolver tanto no primeiro turno como no segundo. A razão da relativa segurança desse prognóstico são os resultados expressivos em pesquisas, a mesma razão que se aplica ao caso de Lula, no plano nacional. E a ambos os casos se aplica também o entendimento de que essa previsão não indica sequer que um e outro chegarão como favoritos à reta final do primeiro turno de suas respectivas disputas.  O caminho de ACM Neto ao governo está repleto de dificuldades prévias e de armadilhas complementares. Entre as primeiras, a principal é o fato de disputar uma eleição ao governo da Bahia na oposição estadual e sem o apoio – ao contrário, até com a hostilidade – do governo federal. Isso é algo que não tem sucesso na Bahia desde as eleições vencidas por Juracy Magalhães em 1958.  ACM, o avô, em sua fênix de 1990, foi o que chegou mais perto disso, mas mantinha com o governo Collor uma relação que não lhe rendia apoio explícito. Era “simpatia quase amor”, repartida com o então governador, seu desafeto. Entre as armadilhas complementares que se insinuam no caminho de Neto, a principal é a não existência de uma candidatura presidencial de frente ampla ou ao menos agregadora do campo antibolsonarista liberal. Seria o tipo de candidatura que pouparia Neto do risco de ter nos calcanhares de sua campanha a força magnetizante que candidaturas competitivas nacionais exercem sobre deputados e prefeitos, esses últimos cabos eleitorais tradicionalmente eficazes num estado imenso e disperso como a Bahia. Ele parece claramente apostar na estadualização da campanha. Opção confederada, plena de lógica se o quadro nacional não lhe favorece. Para isso mobiliza a memória do avô, que encerra outra tradição, qual seja a do líder estadual que concentra a polarização em torno de si, neutralizando deputados, prefeitos, senadores e até candidatos nacionais, todos curvados à força da sua liderança pessoal. Resta saber se o carisma e as tradições funcionarão tão bem sobre prefeitos hoje com acesso direto ao governo federal, deputados e senadores empoderados pelo maior controle do orçamento federal e candidatos presidenciais fortemente autárquicos e rebeldes a lógicas confederativas ou até mesmo federativas, como são Bolsonaro, Moro ou Ciro. Deixo de mencionar Lula não tanto porque ele é – na contramão do seu partido – o menos centralizador dos que hoje estão no ringue presidencial, e mais porque é e será sempre, haja o que houver, um adversário dos planos eleitorais de Neto.  Essas dificuldades, no entanto, não removem, ao contrário, explicam o protagonismo certo do ex-prefeito de SSA nas eleições de 2022.

A mesma certeza não se pode ter quanto à presença de Wagner na cena, na condição de candidato a governador, embora se possa cravar que, se ele for candidato, será também um polo fadado ao protagonismo. A incerteza maior não provém de sua posição atual nas pesquisas, que nada tem de definitiva, mas do quadro nacional e, dentro dele, com especial destaque, da manutenção do fator Lula nas atuais condições de competitividade. Além disso, dependerá da capacidade do acordo político estadual longevo, que resiste a várias tempestades da política brasileira, tornar-se uma aliança política de fato, feita entre partidos, com amplitude nacional. Para o PT aspirar manter-se na cabeça de uma chapa de aliança desse tipo é preciso que o fator Lula seja decisivo como popularidade e, também, como capacidade de mobilizar o centro. Claro que o PT pode manter a aspiração a partir apenas da popularidade de Lula – que na Bahia é muito expressiva – e da disposição do atual governador de manter-se à frente do governo até a eleição. Mas ao lançar-se à disputa sem uma aliança relevante à sua direita, que vá além de acordos entre personagens individuais, arrisca-se a arranhões com um aliado nacionalmente referenciado como Oto Alencar, ainda mais enfrentando um candidato como Neto, que mantém vasos comunicantes tradicionais com áreas relevantes para a reeleição de Oto ao Senado. Nesse cenário, é real o risco de a fatura ser liquidada pelo adversário no primeiro turno, antes que Lula esteja virtualmente eleito e, portanto, apto a exercer plenamente sua influência em favor do amigo. Podemos entender que é risco análogo ao que correrão as forças governistas federais se tentarem enfrentar Lula mantendo a cabeça da chapa sob controle do atual grupo governante. A hora é de decisão para o PT baiano: focar na candidatura presidencial e no que ela for capaz de conservar da aliança governista estadual para assim tentar garantir ou até ampliar a sua bancada federal ou então focar na conservação do governo estadual pelo partido com uma candidatura de bom recall, alavancada por Lula e arriscar, nessa luta de resultado incerto,  a paz com os aliados de hoje, que até aqui protegem o partido do isolamento, preservando relativamente as bases de onde deputados petistas retiram votos. Em alguns meses, talvez semanas, os petistas baianos avaliarão o que mais ajuda Lula e os seus deputados: uma candidatura de Wagner a governador, uma candidatura de Rui Costa ao Senado ou, ainda, o lançamento ao Senado de um quadro que se oponha a João Leão e sugira renovação. Tendo a crer que agirão de acordo com a resposta que encontrarem a essa pergunta, resposta que desconheço. Tribuna da Bahia