Desistência de Neto: Sobre a quebra da confiança em um cenário de terra arrasada


Uma semana após o prefeito ACM Neto (DEM) anunciar que não será candidato ao governo estadual, a oposição a Rui Costa (PT) na Bahia ainda junta os cacos em busca de algum projeto de redução de danos. Quando questionados em conversas reservadas, os até então entusiastas de Neto, não economizam críticas, xingamentos e repúdio.

Publicamente poucos expõem às vísceras e não o fazem porque buscam encontrar uma forma de não se vestir com o discurso de derrotados precocemente. No entanto, é clara a frustração do grupo. A sensação, entre os mais experientes, é de que deixaram-se levar por uma ideia e não conseguiram visualizar a política como ela é.

Os mais novos já observam o (ainda) principal líder do grupo e não mais se espelham automaticamente, tampouco desejam “crescer” à sua imagem e semelhança como antes. A fé cega e a faca amolada foram-se. Buscam um caminho, escada para subir degraus e olham horizontalmente para aquele que até bem pouco tempo atrás era além de líder, exemplo. Este texto é de Luiz Fernando Lima é editor de política do Bocão News.

Quando se conversa com os deputados federais ou estaduais, com dirigentes partidários e assessores políticos do grupo, a conclusão é de que este é o momento para reavaliar o caminho que vinha sido trilhado. A expectativa eleitoral é a pior possível e só não é ainda mais grave porque o PT, adversário direto, também não goza do prestígio de outrora.

Sobre a perspectiva eleitoral, os candidatos a cargos Legislativos dizem que haverá perda substancial de voto político. Os prefeitos e candidatos derrotados a prefeitos em 2016 (chamados de bandas ‘b’) estão procurando o governo. Lideranças que arregimentam e organizam votos não se furtam a conversar com candidatos adversários.

Tirando os locais onde água e óleo, como disse um deputado, não se misturam, os cabos eleitorais estão abertos a negociação. Neste sentido, o que é chamado de voto político está comprometido. Ou seja, quem estava na linha de corte das coligações está fazendo conta de como conseguirá se eleger.

Sensação — Em 2006 quando Jaques Wagner derrotou pela primeira vez os participantes do antigo “Carlismo” havia uma sensação de vitória. Algo que foi chamado de “onda vermelha” porque entusiasmava os eleitores e militantes de modo que a possiblidade de vitória estava no ar e influenciava os indecisos ou apáticos.

Voltando ao período eleitoral de 2016 quando a ex-presidente Dilma Rousseff tinha sofrido o impeachment por causa das tais “pedaladas fiscais” – crime que até hoje a maioria da população não faz ideia do que seja (pode pesquisar) – o PT estava em desgraça e o sentimento era de que seriam extirpados do poder em todas as esferas.

As derrotas nas eleições municipais deram fôlego a esta tese, mas o problema é que a política brasileira foi forjada em brumas e de cristalino só há o dito “popular” de que neste ambiente não existe “santo”. A gestão de Michel Temer e o avanço da Lava Jato, além de uma crise institucional, jurídica, econômica e sobretudo dos serviços públicos não alavancaram os adversários dos petistas.

Ao contrário, antes mesmo de Neto tomar a decisão de não disputar, já se via que não haveria condições de explorar a corrupção petista como diferencial negativo aos “vermelhos”. Todos estão na mesma. Quando não, estão ao menos nivelados.

Diante deste cenário, não houve a criação da “onda azul” como esperavam os apoiadores do prefeito de Salvador, ACM Neto. Com a saída do presidente nacional do DEM da “cédula” (urna eletrônica) piorou. A expectativa de poder está nas mãos do atual governador.

O que Neto não diz sobre o “ouvir” as ruas, vielas e ladeiras de Salvador é que os mesmos que dizem querer a continuidade da gestão dele na prefeitura, ironicamente querem a permanência de Rui Costa no governo do estado por mais quatro anos. Existem pesquisas internas com este diagnóstico e a informação já caiu na rua.

Neste sentido, o voto político costurado com emendas, ajudas, suporte e relação interpessoal está sendo retaliado em estimados 1/3, como os próprios aliados de Neto afirmam. Já o voto imponderável, não o de opinião, mas aquele que vem com a maré a favor, do efeito “manada”, foi praticamente todo perdido pelo grupo.

Este é o desafio de Neto que, tendo decido à planície da humanidade que erra, acerta e sangra como todo mundo, precisa convencer o grupo com argumentos, cumprindo a liturgia, sem bater o pé ou na mesa, para tentar emplacar suas vontades. Luiz Fernando Lima é editor de política do Bocão News