'É a eleição mais doida que eu já vi', diz publicitário Duda Mendonça a jornal


Afastado de campanhas há 4 anos, o publicitário Duda Mendonça, afirmou que a eleição de 2018 é a mais "doida" que já viu. Precursor de um novo estilo de marketing político, ele comandou propagandas de candidatos sob contratos milionários desde o começo da década de 1990 e foi responsável por ajudar a eleger Lula pela primeira vez, em 2002.

Envolvido nos dois maiores escândalos, o mensalão e a Lava Jato, o marqueteiro acompanha de longe a corrida presidencial. Ele avaliar que o pleito atual é, na verdade, um plebiscito. "É a eleição mais doida que eu já vi. Não é uma campanha presidencial e sim um plebiscito entre quem quer Lula e quem não quer", declarou.

O publicitário afirmou que esse cenário explica, por exemplo, a dificuldade do tucano Geraldo Alckmin crescer nas pesquisas, apesar de ter o maior tempo de propaganda eleitoral na televisão. "Não existe uma disputa entre candidatos, pouco importando, portanto, os que têm muito tempo de rádio e TV e os que não têm. Quem está fazendo uma estratégia de campanha está perdendo tempo. Não estamos em uma campanha, estamos em um ple-bis-ci-to."

Para Duda Mendonça, em um plebiscito a premissa principal é definir o lado em que vai estar. "Tem de ter apenas um lado. Não pode ter muitas coisas contra os dois lados". Jair Bolsonaro (PSL) é quem lidera a corrida presidencial, segundo a última pesquisa do Datafolha, divulgada na sexta-feira (28), com 28%. Em segundo está Fernando Haddad (PT), que subiu para 22%.

"O Bolsonaro saiu na frente [de Alckmin]. Ele não era visto como um político pela maior parte do Brasil e tem uma linguagem absolutamente popular. E mais: logo no início mostrou ser radicalmente contra Lula, que ainda poderia ser o candidato do PT. Ao contrário dos outros candidatos que demoraram a escolher seu lado claramente. E esses, hoje, são contra os dois lados do plebiscito, batendo de um lado e de outro".

Na avaliação do publicitário, apesar de experiências passadas exitosas nesse sentido, quem está fora dos dois polos e faz campanha atacando não tem chance. "Quem bate, perde. Digo isso há muito tempo. O povo não gosta dessas coisas." Além de ter levado Lula ao Planalto adotando o mote "Lulinha paz e amor", Duda já havia ajudado a eleger Paulo Maluf e Celso Pitta, do grupo de Maluf, nos anos 1990.

Trabalhou nas campanhas ao Senado de Marta Suplicy (MDB) e Lindberg Farias (PT). Em 2014, fracassou na coordenação das campanhas de Delcídio do Amaral (PT) ao governo do Mato Grosso e de Paulo Skaf (MDB) ao governo de São Paulo, que o levou mais uma vez a ser alvo de investigações do Ministério Público e da Polícia Federal.

O marqueteiro foi delatado por executivos da Odebrecht, sendo acusado de receber pagamentos do trabalho ao emedebista por meio de caixa 2. Meses depois também se tornou delator, tendo sua colaboração homologada pelo Supremo Tribunal Federal em junho. Duda disse à reportagem que não falaria sobre o assunto, cujos temas delatados ainda estão em investigação.

O marqueteiro virou um dos personagens principais do mensalão, em 2005, quando apareceu sem avisar em uma CPI em andamento e admitiu ter recebido ilegalmente do PT dinheiro da campanha de 2002, tendo feito parte do esquema de caixa 2 da legenda. Sete anos depois, ele foi absolvido pelo Supremo. Duda disse ter negado convites feitos por candidatos neste ano, sem falar nomes.

Mesmo sem saber ainda quais serão as consequências judiciais de sua delação, o publicitário disse que ainda cogita voltar a trabalhar em eleições. "Não quis fazer campanhas este ano. E a depender do andamento das coisas não faço mais. Fui procurado, agradeci, mas não quis. (...) [Depende] De todo o andamento das regras do jogo. De como serão, por exemplo, os financiamentos das campanhas. E os pagamentos dos que trabalham nelas. Tudo tem de ser claro, sem subterfúgios."

Perguntado sobre se é possível fazer campanha sem caixa 2, Duda disse que acha "que sim, sobretudo para os que trabalham de forma correta. Acrescentamos os impostos nos custos e dormimos em paz". Apesar dos envolvimentos nos escândalos, o maior arrependimento que Duda diz ter na carreira não tem a ver com isso.

"O maior arrependimento é quando ajudamos a eleger alguém e depois ficamos desencantados com ele. Chegamos a uma conclusão frustrante: Deus nos deu um dom e verificamos que ajudamos a eleger a pessoa errada", disse, sem citar nomes. "Não é correto dar os nomes das pessoas. Não há quem nunca erre." Informações do jornal Folha de S. Paulo